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Chão Urbano

Chão Urbano ANO V Nº 02 Mar e Abr 2006

01/03/2006

Integra:

 

ANO VI Nº 03 e 04 Mar e Abr 2006

 

 

A expansão recente da urbanização: o Rio de Janeiro

e a ampliação das inundações. Até quando?

 

 Enchentes e processo de urbanização

 

O Rio de Janeiro apresenta alguns vetores de expansão recente no interior mesmo do núcleo da metrópole, para os quais não tem-se dado atenção devida. Um destes vetores trata-se da área dos antigos subúrbios - aqueles bairros ao longo e entre as estradas de ferro Central do Brasil e Leopoldina. Um outro podese apontar nos bairros em condições ainda de suburbanização em Anchieta-Guadalupe-Ricardo de Albuquerque-Realengo. Um terceiro vetor encontra-se em Jacarepaguá e na área da Barra da Tijuca-Recreio-Vargens. A expansão recente de urbanização nestes três vetores se dá através de nova utilização do uso do solo com a instalação de Atividades comerciais de grande porte atividades de serviços e lazer, adensamento populacional em habitações informais e formais, verticalização e novas ocupações horizontais, construção de importantes infra-estruturas viárias e o pertinente aumento do número e fluxo de veículos automotores. A expansão dos antigos e mais recentes subúrbios, e mesmo de Jacarepaguá não tem sido percebida convenientemente. O crescimento da Barra-Recreio-Vargens dado serem lugares de expansão das camadas de maior renda encontra maior repercussão, mesmo que abriguem ainda um contigente populacional fixo restrito para seu grande potencial de adensamento (por exemplo, a Barra da Tijuca no último censo tinha apenas 90.000 habitantes sendo superada pelo sub-bairro da Taquara em Jacarepaguá que contava 92.000 habitantes). Mas de fato será seu crescimento como subcentro de comércio, serviços e lazer que impacta na expansão urbana. Tornou-se um pólo de atratividade importante como local de trabalho, demandando grande fluxo de deslocamentos realizados pelo modal automotivo, e sendo também área de crescimento do uso residencial, apresenta expansão da atividade imobiliária. O aparecimento de um importante sub-centro na Barra, acaba por obscurecer o vertiginoso crescimento de Jacarepaguá. Contando com população de mais de 500.000 habitantes a área compõe-se de 11 sub-bairros com expansão do uso residencial, principalmente de moradias unifamiliares em condomínios fechados e explosão de moradias em vilas, além de um grande crescimento de um número de favelas e adensamento das já existentes (como por exemplo a de Rio das Pedras, das que mais cresce no Rio). Conta também com expansão do uso comercial, inclusive com novos shopping centers, embora de pequeno porte, intenso comércio de lojas de rua; de atividades de ensino em todos os graus; além de manter atividades industriais (principalmente indústrias farmacêuticas) e o grande parque de produções televisivas da Rede Globo (o Projac). Mas a área dos antigos subúrbios experimenta igualmente uma expansão muito importante quando a abertura da via expressa Linha Amarela facilita sua acessibilidade e atrai para seu entorno empreendimentos comerciais de vulto (shopping centers; megacentros comerciais; hipermercados; universidades...). Altera-se assim seu uso, antes fortemente marcado pelas indústrias, para área comercial. Observa-se, também, que sua ocupação residencial antes horizontalizada está em franco processo de verticalização. Por outro lado, densificou-se e expandiu-se a moradia em favelas, agora formando os chamados complexos (como o Complexo do Alemão). Já o vetor dos bairros sub-urbanizados tem sido pouco notada sua grande expansão, pois trata-se de área de camada de renda baixa e média baixa com ocupação residencial horizontal de pequenas casas em pequenos lotes, entremeados por favelas e antigos conjuntos habitacionais. Sua expansão não tem limites formais acontecendo onde quer que existam os espaços vagos, inclusive na margem de rios e canais, subindo encostas ou implantando-se em terrenos de baixada. Em comum às áreas correspondentes aos três vetores de expansão recente da urbanização temos seu crescimento sem tomar em consideração o meio ambiente onde assentam-se. Não foi por acaso que nas mais recentes inundações no Rio de Janeiro, em janeiro de 2006, os fatos e danos mais importantes aconteceram nestas áreas. Na área dos antigos subúrbios, a densificação da ocupação dos morros por moradias acrescenta velocidade e elementos (terra, lixo e esgoto) às águas de chuva, que vão encontrar rios e canais assoreados, bloqueados (com lixo, garrafas pet, móveis, pedaços de carros, eletrodomésticos e outros) e provocando inundações cada vez mais rápidas, fortes e com grande volume e altura de água. Não poderia ser mais surpresa os resultados das inundações (como a de morte de pessoas no shopping da Penha) pois não tendo mais por onde escoar, nem infiltrar-se (dada a pavimentação das ruas e calçamento de terrenos e praças e desmatamento dos morros) as águas tendem a encher as ruas e avenidas, e estas transformam-se nos “canais” de sua passagem¹. Assim as águas, que não encontram saída, pois a área está bloqueada pelo aterro feito para a construção da av. Brasil que forma um “muro” no seu entorno, assim como tem barragens internas feitas pelas linhas das estradas de ferro que também foram construídas em aterro pois toda a área é de baixada e alagadiça, é carreada pelas ruas e avenidas já que os rios e canais não tem dimensão suficiente para o volume de descarga pluviométrica acelerada na descida dos morros desmatados e misturado ao lixo e todo tipo de restos (de móveis, eletrodomésticos, carros, etc.) vai procurando acomodar-se no espaço que resta e eleva-se rapidamente. No vetor Anchieta – Guadalupe – Ricardo de Albuquerque e Realengo as inundações tenderão a agravar-se cada vez mais. É o próprio estágio de expansão da urbanização numa área sub-urbanizada, ou seja, ainda com muitas ruas sem pavimentação e drenagem, sem rede de esgoto, com coleta precária de lixo que aumenta o problema. Pois se a sub-urbanização ainda deixa certa permeabilidade para as águas infiltrarem-se, a ocupação intensa dos lotes, o lançamento de esgoto a céu aberto, o assoreamento dos rios e canais com suas margens ocupadas e a inexistência de rede de drenagem transformam as ruas em lodaçais após cada chuva, e a água tende a espalhar-se e acumular-se nas partes baixas comuns em toda a área. A área igualmente tem na Av. Brasil construída em aterro também nestes bairros uma barreira, assim como a saída das águas pelos rios e canais na direção da baía de Guanabara encontra retenções no aterro feito para a construção da Via Dutra, e mais recentemente da Linha Amarela. Por fim, no vetor de crescimento de Jacarepaguá a expansão urbana se fez e continua a se fazer reduzindo-se a calha de rios e canais, aterrando-os e desviando-os para acrescer área a empreendimentos imobiliários. Não tendo em quase toda a área rede de coleta de esgoto o mesmo é lançado a céu aberto ou nos rios e canais que estão sendo assoreados pela ocupação das margens e carregamento de matéria orgânica de morros e baixadas. A área, que trata-se de uma baixada, encontra na saída dos seus rios e canais o conjunto lacustre de Jacarepaguá totalmente assoreado por lodo, lixo, esgoto e o que a natureza tinha elaborado exatamente como lugar para recolhimento das águas não comporta por sua situação o volume aduzido e extravasa seu excedente pela varzea ao seu redor. Só que esta agora esta em franca urbanização ou urbanizada. Assim o que enche são as ruas, avenidas e praças no que antes era várzea natural. Sendo caminhos pavimentados a água encontra dificuldade de infiltração e ganha força e velocidade. A expansão urbana recente do Rio de Janeiro repete a urbanização histórica da cidade ao não considerar o marco ambiental como componente necessário e obrigatório para o desenvolvimento territorial. O resultado foi o que presenciou-se em janeiro de 2006, onde repetição da não consideração da situação ambiental, agora amplificada, e o será cada vez mais, causou a morte de seres humanos, destruição de infraestruturas, de moradias e usos comerciais, e de outras atividades. Até quando?

 

Mauro Kleiman

 

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