Visualizar - Revistas | Chão Urbano

Chão Urbano

CHÃO URBANO ANO XVIII Nº 6 - OUTUBRO / NOVEMBRO DE 2018

27/11/2018

Integra:

CHÃO URBANO ANO XVIII - 6 OUTUBRO/NOVEMBRO DE 2018

 

Editor

Mauro Kleiman

Publicação On-line

Bimestral

Comitê Editorial

Mauro Kleiman (Prof. Dr. IPPUR UFRJ)

Márcia Oliveira Kauffmann (Dra. Em Planejamento Urbano e Regional)

Maria Alice Chaves Nunes Costa (Dra. Em Planejamento Urbano e Regional) – UFF

Viviani de Moraes Freitas Ribeiro (Dra. Planejamento Urbano e Regional IPPUR/UFRJ)

Luciene Pimentel da Silva (Profa. Dra. – UERJ)

Hermes Magalhães Tavares (Prof. Dr. IPPUR UFRJ)

Hugo Pinto (Dr. Em Governação, Conhecimento e Inovação, Universidade de Coimbra – Portugal)

Editores Assistentes Júnior

Beatriz Mesquita Angelo e Julia Paresque 

IPPUR / UFRJ

Apoio CNPq

LABORATÓRIO REDES URBANAS LABORATÓRIO DAS REGIÕES METROPOLITANAS

Coordenador

Mauro Kleiman

Equipe

Beatriz Mesquita Angelo e Julia Paresque

Pesquisadores associados

André Luiz Bezerra da Silva, Audrey Seon, Humberto Ferreira da Silva, Márcia Oliveira Kauffmann Leivas, Maria Alice Chaves Nunes Costa, Viviane de Moraes Freitas Ribeiro, Vinícius Fernandes da Silva, Pricila Loretti Tavares

Índice 

A CIDADE NA ENCRUZILHADA: TENSÕES DO CAPITALISMO E A NECESSIDADE DE UMA TRANSIÇÃO SUSTENTÁVEL...3

 CONTORNOS E TENDÊNCIAS DAS COMUNIDADES SUSTENTÁVEIS INTENCIONAIS EM PORTUGAL – UMA ANÁLISE DESCRITIVA E EXPLORATÓRIA...11

 LUZES E PENUMBRAS ENTRE CAPITALISMO E CIDADE: UMA REVISÃO DE LITERATURA...40

 

Editorial 

  

A Cidade na Encruzilhada: Tensões do Capitalismo e a Necessidade de uma Transição Sustentável. 

 

Hugo Pinto¹ e Mauro Kleiman² 

A história da sociedade humana está largamente associada ao desenvolvimento da cidade. 

Muito do que a humanidade alcançou nos últimos três milênios resultou de notáveis criações colaborativas realizadas em contexto urbano. A cidade possui essa força, permite aprender com a proximidade entre pessoas e estimular a colaboração através de economias de aglomeração. A cidade é também um quase sinônimo de desenvolvimento econômico e de elevados padrões de vida. Existem pesquisadores, como Edward Glaeser, autor de Triumph of the City (O Triunfo da Cidade), que a consideram a mais importante invenção humana (Glaeser, 2011). Segundo este autor se comparamos diferentes países, existe uma correlação positiva quase perfeita entre urbanização e prosperidade econômica. Isso significa que os países com mais cidades estão normalmente mais preparados em áreas fundamentais para o bem-estar das populações, gerando níveis mais elevados de renda. 

O segredo do poder das cidades é a grande densidade das relações humanas. 

As economias de aglomeração, na tradição de Alfred Marshal, permitem à cidade a capacidade de se especializar profundamente em determinadas atividades econômicas e beneficiar de uma intensa atmosfera industrial. Na tradição de Jane Jacobs, as cidades trazem um grande número de pessoas para contatos mais próximos, mais frequentes e produtivos do que outros lugares. O grande benefício da aglomeração é exatamente essa diversidade em contato direto, face-a-face, essencial para facilitar as trocas de conhecimento e ideias que geram invenções, novas empresas e inovação.  Mas a cidade está atualmente numa encruzilhada.  Segundo informação da Organização das Nações Unidas (United Nations, 2018), em termos globais, cada vez mais pessoas vivem em áreas urbanas. Em 2018, mais de metade da população mundial (55%) reside em áreas urbanas. A população urbana do mundo cresceu rapidamente desde 1950, tendo aumentado de 751 milhões a 4,2 bilhões em 2018. Em 1950, 30% da população mundial era urbana. Estima-se que em 2050, este valor ascenda a 68% da população mundial. Quase 90% do crescimento nas próximas décadas ocorrerá em países em desenvolvimento, na Ásia e em África. 

Perto da metade dos moradores urbanos do mundo residem em lugares com menos de 500.000 habitantes, enquanto cerca de um em cada oito vive numa das 33 megacidades com mais de 10 milhões de habitantes. Até 2030, o mundo poderá ter 43 megacidades, a maioria delas em países em desenvolvimento (cf. Figura 1). Tóquio é a maior cidade do mundo, com uma aglomeração de 37 milhões de habitantes, seguida de Deli com 29 milhões e Xangai com 26 milhões. Seguem-se a Cidade do México e São Paulo, cada uma com cerca de 22 milhão de habitantes. 

Este crescimento origina diversos desafios, não só para a própria cidade, mas também nas relações hierárquicas que esta estabelece com outros lugares. A densidade e benefícios da aglomeração espacial então na base de uma visão hierárquica das cidades no sistema-mundo com diferentes funções. A cidade global compete cada vez mais pela atração de recursos e investimentos com outras cidades 

  

 
 

Figura 1: Urbanização crescente a nível global e o surgimento das cidades globais 

Fonte: Organização das Nações Unidas (United Nations, 2018) - World urbanization prospects 2018 (acessado em 15 de Outurbro de 2018). https://population.un.org/wup/Maps/  

 

 

 

 

Surgem diferentes rankings que avaliam a capacidade das cidades globais em dominar ou serem dominadas, sendo o mais conhecido o disponibilizado pelo Globalization and World Rankings Research Institute (cf. Tabela 1). 

 

Alpha++ 

Alpha+ 

Alpha  

Alpha−  

Beta+  

Beta  

Beta−  

Londres, Nova Iorque 

Singapura, Hong Kong, Paris, Pequim, Tóquio, Dubai, Xangai 

Sydney, São Paulo, Milão, Chicago, Cidade do México, Mumbai, Moscou, Frankfurt, Madri, Varsóvia, Joanesburgo, Toronto, Seul, Istambul, Kuala Lumpur, Jacarta, Amsterdã, Bruxelas, Los Angeles 

Dublin, Melbourne, Washington, Nova Deli, Bangkok, Zurique, Viena, Taipei, Buenos Aires, Estocolmo, São Francisco, Guangzhou, Manila, Bogotá, Miami, Luxemburgo, Riad, Santiago, Barcelona, Tel Aviv, Lisboa 

Praga, Cidade de Ho Chi Minh, Boston, Copenhague, Düsseldorf, Atenas, Munique, Atlanta, Bucareste, Helsinque, Budapeste, Kiev, Hamburgo, Bangalore, Roma, Oslo, Dallas, Cairo, Houston, Lima, Lagos, Caracas, Auckland, Cidade do Cabo 

Doha, Karachi, Nicósia, Genebra, Montevidéu, Berlim, Montreal, Abu Dhabi, Casablanca, Filadélfia, Vancouver, Shenzhen, Sofia, Perth, Hanói, Beirute, Brisbane, Bratislava, Manama 

Port Louis, Mineápolis, Chennai, Stuttgart, Santo Domingo, Rio de Janeiro, Cidade do Kuwait, Cheng du, Cidade do Panamá, Denver, Lahore, Jidá, Túnis, Quito, Belgrado, Seattle, Manchester, Cidade da Guatemala, Lyon, São José, Tianjin , Calgary, Amã, San Juan, San Salvador, Antuérpia, Zagreb, Calcutá, Tallinn, São Luís, Monterrey, Hyderabad, Edimburgo, San Diego, Colônia, Roterdã, Daca, Islamabad 

Tabela 1: Ranking das Cidades Globais em 2016 

Fonte: Globalization and World Rankings Research Institute, acessado a 16 de Outubro de 2018. 

 

Esta hierarquização tem levado a uma crescente concentração urbana, que acontece simultaneamente a vários níveis. Ao nível local, a vila ou cidade média capta os recursos das pequenas aglomerações. Ao nível estadual, a capital captura os benefícios de toda a região. Ao nível nacional, as grandes cidades são as maiores beneficiadas das políticas nacionais e de atração de investimentos estrangeiros, capturando a fatia central de recursos. Mas estas competem também com outras cidades globais. Daqui não resultaria nenhum fenómeno demasiado nefasto não fosse o fato da preferência pela aglomeração estar criando causalidades cumulativas de consequências imprevisíveis. As cidades maiores são cada vez mais atrativas e os outros lugares são cada vez mais os espaços onde ninguém quer viver e dos quais ninguém quer saber. 

Como referido, as cidades concentram atualmente mais de metade da população mundial e as megalópolis multiplicam-se rapidamente. O futuro vai ser cada vez mais urbano. Mas há sempre uma cidade maior que a nossa. Estamos a chegar a uma situação em que a cidade vencedora será absoluta (Flórida, 2017). As cidades estão a seguir cada vez mais este padrão de o vencedor fica com tudo, em que um pequeno grupo de cidades globais-estrela concentram uma parcela absolutamente desproporcional do talento, atividade econômica, inovação e riqueza (Florida, Mellander e King, 2017). 

No entanto, mesmo nas cidades vencedoras, nem tudo corre bem. A concentração de recursos nestas cidades tem originado uma forte especulação imobiliária aumentando exponencialmente os preços da habitação. O resultado prático é que, embora os salários médios sejam mais altos, após se descontar os custos da habitação, os indivíduos que não sejam de escalões de elevada renda, estão efetivamente numa situação mais desfavorável em termos de nível de vida numa cidade global-estrela do que numa outra cidade média do seu país (Flórida, 2017).    

A quem cabe as decisões de políticas públicas e acadêmicos frequentemente enfatizam a ligação positiva entre a dimensão da cidade e o crescimento econômico. Uma análise recente (Frick e Rodríguez-Pose, 2018), com um painel de 113 países e informação entre 1980 e 2010, analisou se existem dimensões populacionais das cidades que induzem o crescimento econômico e os fatores que impactam nessa relação. Contrastando com a visão dominante na literatura de que as grandes cidades são sempre incitadoras de crescimento, esta análise revelou que são as cidades relativamente grandes até 3 milhões de habitantes, as mais propícias ao crescimento econômico. Uma grande parte da população urbana em cidades com mais de 10 milhões de habitantes será apenas promotora de crescimento em países com uma população urbana superior a 28,5 milhões. Os resultados sugerem assim uma relação não linear entre estes dois fenómenos que depende do largamente tamanho do país onde se localiza cada cidade. 

A cidade está numa encruzilhada. 

A concentração urbana enfrenta grandes desafios relacionados com congestionamentos de trânsito, a criminalidade e a criação de outros bloqueios geradores de externalidades negativas. A cidade tornou-se um problema ao ser atualmente a maior produtora de resíduos e de poluição, gerando preocupações sobre como compatibilizar o estilo de vida urbano com um paradigma sustentável, essencial à sobrevivência do planeta. A globalização, em particular a financeirização, gerou estímulos para o investimento imobiliário nas cidades globais. A rentabilidade dessa especulação é assegurada pela crescente demanda de habitação com a ascensão de classes médias e altas, favorecendo a gentrificação dos centros das cidades. A cidade cada vez mais tenta atrair os ricos e muito ricos, há uma mudança nas políticas para a cidade atender diretamente às suas necessidades. Esta é uma cidade tremendamente desigual (Short, 2017). Por outro lado, o capitalismo tem também criado novas pressões no desenvolvimento urbano, seja pela imposição da privatização de bens e serviços considerados públicos, como os transportes ou a água, ou pelo impacto transformador de consequência imprevisíveis com as crescentes hordas de turistas urbanos na vida quotidiana da cidade. Esta é uma luta global, predominantemente com o capital financeiro, pois essa é a escala em que os processos de urbanização agora funcionam (Harvey, 2008).  

A geração de desigualdade na cidade normalizou-se. Hoje encara-se com demasiado à vontade os diferentes níveis de desenvolvimento entre cidades e dentro de cada cidade, as zonas em redor dos centros comerciais e financeiros, a criação de guetos e favelas, com a divisão clara do espaço em função da capacidade financeira e poder de compra. O Brasil é paradigmático neste contraste (cf. Figura 2), mas o mundo está cheio de exemplos2. 

 

 

Figura 2: Imagem aérea da Rocinha, na proximidade da Gávea e de São Conrado, dois dos bairros com o imposto sobre a propriedade predial e territorial urbana (IPTU) mais alto da cidade do Rio de Janeiro 

Fonte: Google Maps, acessado em 16 de Outubro de 2018. 

 

As armadilhas da pobreza estão muito ativas no mundo atual e têm uma fortíssima dimensão espacial. A maior parte das vezes referem-se à falta crónica que alguns territórios têm em termos dos diferentes tipos de capital, o capital físico, natural, social, político e humano. Enquanto os decisores políticos continuam a argumentar que se economias de aglomeração forem bem-sucedidas o dinamismo econômico vai acontecer, a pobreza, a decadência e falta de oportunidades persistem em muitos lugares. Estes problemas, quase crónicos, estão causando o descontentamento nestas regiões em declínio. Essa desconexão levou as populações de muitos desses “lugares dos quais ninguém quer saber a se revoltarem em ondas de populismo político que têm fortes bases territoriais e não sociais como era comum (Rodriguez-Pose, 2017). 

Composto por artigos de jovens pesquisadores portugueses, este número do Chão Urbano é um pequeno contributo para estas discussões. O primeiro texto “Luzes e Penumbras entre Capitalismo e Cidade: Uma Revisão de Literatura”, de Fábio Sampaio da Universidade de Coimbra, apresenta uma reflexão conceitual sobre o desenvolvimento urbano e o capitalismo. O segundo texto “Contornos e Tendências das Comunidades Sustentáveis Intencionais em Portugal – uma Análise Descritiva e Exploratória”, de Carla Nogueira da Universidade do Algarve, apresenta uma avaliação recente de comunidades sustentáveis em Portugal, procurando explorar aprendizagens para a vida urbano a partir destes modos de vida alternativos.  

A cidade está numa encruzilhada. Mais e melhor pesquisa e melhores políticas de desenvolvimento territorial são necessárias para explorar o potencial da cidade e fornecer oportunidades quer às pessoas que vivem nos “lugares dos quais ninguém quer saber” quer às que são marginalizadas nas cidades globais-estrela. 

 

Referências 

Florida, R. (2017). The New Urban Crisis, New York: Basic Books. 

Florida, R., Mellander, C. e King K.M. (2017). Winner-Take-All Cities, Working Paper Series, Martin Prosperity Research, REF. 2017-MPIWP-002 http://martinprosperity.org/media/2017-MPIWP-002_Winner-Take-All-Cities_Florida-Mellander-King.pdf  

Frick, S.A. e Rodríguez-Pose, A. (2018). Big or small cities? On city size and economic growth, Growth and Change, Vol. 49 No. 1 (March 2018), pp. 4–32,doi:10.1111/grow.12232 

Glaeser, E. (2011). Triumph of the city: how our greatest invention makes us richer, smarter, greener, healthier, and happier, the Penguin Press.  

Harvey, D. (2008). The right to the city, New left review, 53, sept-oct, pp. 23-40, https://newleftreview.org/II/53/david-harvey-the-right-to-the-city 

Short, J.R. (2017). The Unequal City: Urban Resurgence, Displacement and the Making of Inequality in Global Cities, Routledge. 

Rodríguez-Pose, Andrés (2017). The revenge of the places that don’t matter (and what to do about it). Cambridge Journal of Regions, Economy and Society, 11 (1). pp. 189-209. 

United Nations (2018). World urbanization prospects 2018(Accessed October 15, 2018). https://population.un.org/wup/Maps/  

 

 

 

 

Contornos e Tendências das Comunidades Sustentáveis Intencionais em Portugal – uma análise descritiva e exploratória - Carla Nogueira

Resumo: 

 Nos últimos anos, tem-se registado um crescimento de grupos auto-organizados que procuram a construção de modos de vida que compatibilizem, de forma equilibrada, a dimensão societal, ambiental, económica e organizativa. Este fenómeno é reflexo da maior consciencialização sobre os limites do crescimento, da necessidade de (re)localização da economia para valores de base mais equitativos e integrados assentes numa lógica social e solidária, da vontade de construção de uma sociedade mais democrática e mais participativa. A pesquisa centra-se na análise das diferentes dimensões operativas que caracterizam a constituição e desenvolvimento de um conjunto específico de grupos, que se denominam de comunidades sustentáveis intencionais (CSI). O conceito procura agregar aqueles coletivos que, a partir de um espaço de ação concreto, desenvolvem um conjunto de atividades que beneficiam esse coletivo, valorizando a sustentabilidade como modo de vida. O estudo sobre estas comunidades parte de uma análise extensiva através da aplicação de um inquérito por questionário a um conjunto de comunidades sustentáveis intencionais identificáveis em Portugal. O artigo centra a sua análise na caracterização geral destas experiências em Portugal procurando refletir sobre o potencial de transferência destas iniciativas para outros contextos, como o urbano. Reconhecendo-se o caráter ainda exploratório da pesquisa, pretende-se contribuir para a reflexão sobre a emergência de formas hibridas de comunidade que procurem funcionar como pontes de ligação territorial, que decorrem de uma articulação específica entre o informalismo que se defende e o formalismo que lhes é externamente exigido para o desenvolvimento de parte da sua ação. 

Palavras-chave: Comunidades sustentáveis intencionais; Ecovillages; Dimensões de sustentabilidade; Transição; Portugal 

1. Introdução: 

A erosão das estruturas, sociais e económicas, tradicionais e a eminência de uma crise ecológica global são preocupações que atravessam a contemporaneidade. Os paradigmas que preconizam o desenvolvimento como sinónimo de crescimento económico têm vindo a ser alvo de várias interrogações e do interesse de um número crescente de investigadores científicos. Paralelamente, têm surgido iniciativas que tentam desenvolver modelos de vida, produção e consumo, para superar as consequências sociais, ambientais, económicas e políticas que têm vindo a ser implementadas nas sociedades industrializadas. Estas iniciativas assentam em modelos comunitários de vida cujo principal objetivo é o desenvolvimento e dinamização de práticas de sustentabilidade ambiental, social, económica e cultural e são, neste artigo, designadas por comunidades sustentáveis intencionais. 

Os contextos de crise social, económica e ambiental são férteis no aparecimento de alternativas e experiencias que procurem minimizar as consequências destas crises. É neste contexto que estes modelos têm vindo a ganhar uma nova relevância, precisamente enquanto formas de repensar os modelos e práticas dominantes. Este fenómeno é reflexo da maior consciencialização sobre os limites do crescimento, da necessidade de (re)localização da economia para valores de base mais equitativos e integrados assentes numa lógica social, da vontade de construção de uma sociedade mais democrática, assim como da urgência em implementar modelos sociais mais justos em termos ambientais e económicos. Atualmente, e devido às especificidades e ao aumento destas iniciativas comunitárias, assiste-se a um crescimento do interesse académico sobre este fenómeno. 

Pese embora a importância destas experiências enquanto produtores de modos de vida sustentáveis, a grande maioria destes projetos desenvolve-se em contexto rural. Embora as cidades ofereçam oportunidades económicas em expansão na nova economia global, também é possível verificar que as cidades são grandes contribuintes para a rutura ambiental, dentro e além das suas fronteiras. Com a tendência para a globalização, as cidades são importadores de recursos e exportadores de resíduos, causando um impacto desproporcional sobre os ecossistemas naturais e na biosfera como um todo. Embora seja cada vez mais frequente um discurso político assente na sustentabilidade e nas cidades sustentáveis e inteligentes, ainda persistem desafios. Para além da importância das abordagens top-down, importa também refletir em torno de potenciais introduções de mudanças bottom-up que possam minimizar estes impactos, ainda que à microescala, por parte da sociedade civil.  

O objeto empírico escolhido é a organização de grupos de cidadãos que se agrupam em torno deste objetivo e que tenham passado por uma mudança estrutural do modo de vida e que procurem modelos organizacionais baseados em formatos holísticos, participados e horizontais. Como objetivos a presente pesquisa pretende: traçar um quadro geral sobre estas experiências em Portugal, de uma forma descritiva e exploratória; refletir acerca de que forma é que estas comunidades se manifestam; o que nos sugerem; e cruzar o impacto que a utilização dos princípios das comunidades sustentáveis intencionais poderiam ter nas cidades contemporâneas.